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o que vestir em uma tragédia romântica?
um olhar sobre o figurino de dois clássicos que voltaram ao centro das conversas.

hey!
No fim dessa edição tem um sorteio com todos os prêmios do clube de indicação. Para participar, é só responder a pesquisa — leva menos de 1 minuto. Good luck!
Em menos de um ano, tivemos novas adaptações de Frankenstein e O Morro dos Ventos Uivantes: duas obras góticas que atravessaram séculos influenciando literatura, cinema e estética. Como fã do gênero, quis aprofundar em como esse imaginário reaparece na moda e nos figurinos recentes.
Chamei a Nalu para aprofundar a conversa a partir de Poor Things, e ainda compartilho meu fashion journal com os desfiles mais interessantes da temporada.
espero que gostem :)
have a nice reading!


Não é uma mera coincidência que em menos de um ano, tivemos dois filmes com grande repercussão que foram baseados em leituras góticas. “Frankenstein” e “O morro dos ventos uivantes” são duas obras que mudaram o curso do gênero, inicialmente na literatura, depois no teatro, e por fim no cinema.
O gênero existe desde 1764, ganhou muita visibilidade na era vitoriana (que eu explico melhor nesta edição), mas o ápice do horror e gótico foram durante 1929, quando a sociedade passava pela famosa great depression. O entretenimento refletia exatamente as aflições e dificuldades da sociedade.
As principais características do gênero gótico são emoções extremas, dualidade, melancolia e a natureza como parte fundamental da trama — em Frankenstein percebemos isso na criatura que fica perambulando ao ar livre, e em O morro dos ventos uivantes, no vento característico que aparece tanto no livro e no filme.
O gótico e suas características, são muitas vezes a inspiração para coleções de grandes marcas. Quando John Galliano estava a frente da Dior, diversas referências ao estilo apareciam. E ao contrário do que muitos acham, o gótico não são apenas looks all black. Atualmente ele vem se reinventando e está cada vez mais romântico e maximalista.

Nas adaptações recentes de Frankenstein e O morro dos ventos uivantes, a estética gótica já aparece bem mais moderna e com bastante modernidade no figurino, para não distanciar tanto da nossa realidade.
É muito complexo adaptar um livro para a linguagem visual, ainda mais quando se tem pouco descritivo na leitura. No caso de Frankenstein, Mary Shelley — autora da obra, da poucos detalhes sobre como é a criatura fisicamente, só sabemos que ele tem mais de 2 metros de altura. A imagem que temos hoje da criatura de Frankenstein, na verdade é uma invenção totalmente do teatro e do cinema.
Por este motivo, os figurinos dessas adaptações são tão importantes. Eles são responsáveis por materializar toda a obra, trazer para a nossa realidade, e tornar palpável algo que morava apenas no nosso imaginário. Esse papel requer muita responsabilidade, pois a imaginação de cada um é singular.
No filme Frankenstein de Del Toro, a figurinista Kate Hawley teve o direcionamento de ao invés da estética vitoriana sombria e apagada normalmente associada à história, o filme apostaria em cores intensas, escala grandiosa e padrões marcantes. Kate traz a modernidade no clássico.
No filme, Victor Frankenstein, que anteriormente era associado a imagem de cientista maluco, nessa versão ele ganha um cool bohemian look — seus figurinos foram inspirados no Mick Jagger. No início do filme, ele só usa preto e branco, constrastando bastante com sua mãe que aparece diversas cenas de vermelho.
A cor tem papel central no filme. O vermelho, especialmente, simboliza sangue, memória e herança — muitas vezes utilizado nas luvas de Victor, mostrando o sangue que ele carrega em suas mãos.
A criatura sai do laboratório praticamente sem roupa, e conforme ele vive sua vida e tem suas experiencias ele vai atribuindo roupas. Suas roupas evoluem junto com sua identidade, passando de bandagens quase religiosas a peças que simbolizam pertencimento e humanidade.
Elizabeth tem um figurino muito bem construído. Mia Goth aparece em tons terrosos, com diversos adornos de borboletas e flores. Victor a enxerga como uma figura materna — a mulher que ele imagina como mãe de seus filhos — quase como uma personificação da natureza. Os headpieces criam um halo ao redor de sua cabeça, formando uma imagem quase angelical.

O figurino de Frankenstein é tão contemporâneo — sem perder a fidelidade à época em que a história se passa — que é fácil imaginar essas peças sendo criadas hoje. Recentemente, a YSL apresentou na passarela vestidos muito parecidos com o de Elizabeth, mostrando como moda e cinema frequentemente bebem da mesma fonte.
Já em O morro dos ventos uivantes, com mais de 50 looks e um acervo de joias da Chanel, o figurino da personagem principal, Cathy, usa as cores a seu favor.Quase sempre com roupas rubi e bordo, contrastando com o ambiente gótico e cinza do filme, ela representa a cor no meio da tristeza, um olhar romantizado que Heathcliff tem dela.
Um dos melhores constrastes do filme é quando Cathy entra na família Linton, a estética do filme muda e fica quase que açucarada. Ela passa a usar roupas elaboradas, tons claros e muitas joias e acessórios. Naquela época, as roupas claras eram quase que exclusivos da nobreza — pois os trabalhadores acabavam sujando suas roupas nos seus trabalhos majoritariamente manuais.
A diferença de quem Cathy era e de quem ela se tornou, é mais visível ainda quando ela visita a casa de seu pai e sua roupa não faz nenhum sentido com o lugar. O vestido parece claro demais, grande demais e enfeitado demais para um ambiente tão pequeno e escuro.
Todas as vezes que Cathy é um pouco mais dura e malvada com alguém, ela está usando uma cor escura. As cores são super importantes na construção do enredo.

Jaqueline Durran, figurinista do filme, combinou peças modernas com referências de época que não necessariamente pertencem ao período em que a história se passa. As cores vibrantes e as modelagens fogem da estética típica da era georgiana, incorporando também elementos das eras elizabetana e vitoriana.
Tudo no figurino traduz a obsessão e amor doentio — quase tóxico, entre Cathy e Heathcliff. As roupas comunicam intensidade, desejo, devoção e fixação.
Uma das cenas mais marcantes para o amor de Cathy e Heathcliff acontece no casamento dela, quando o corset é apertado até machucar. Em muitos filmes, a peça aparece como símbolo de silenciamento ou uma espécie de prisão mental. Aqui, o gesto ganha um peso ainda maior: Cathy está prestes a se casar com alguém que não ama e, de certa forma, a se prender para sempre a Edgar.
Os filmes trazem diversas referências estéticas góticas e românticas que há anos inspiram desfiles e coleções e estão presentes na moda. Mas a pergunta é: por que isso voltou a parecer TÃO interessante agora?
Vivemos uma fome por beleza e cultura. Com tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, viemos de uma era marcada pelo minimalismo e pela simplicidade. Usamos roupas de academia para sair de casa e viver o dia. Talvez por isso olhemos para filmes que se passam em outras épocas em busca do belo e do antigo — um tempo em que as pessoas vestiam roupas elaboradas até para um simples café da manhã em casa.
O cinema sempre foi responsável por alimentar um imaginário mais lúdico. Ele inspira a moda e, ao mesmo tempo, é inspirado por ela — é difícil dizer o que vem primeiro. Há coleções baseadas em filmes e figurinos que nascem de referências de passarela. Uma via de mão dupla que tangibiliza esse imaginário e alimenta nossa sede pelo belo e pelo sensível.

Shop my cool finds 🙂
Casaco Welcome Sunny Garments: achei a estampa com cara de vintage, super cool.
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Cinto H&M: tira qualquer look do óbvio, lindo e a cor é ótima.

A versão feminina do Frankenstein w/ Nalu
![]() | Oii, sou a Nalu! Apaixonada por cinema e literatura, eu vejo a arte como uma forma de espiar pela cortina de outra pessoa. De entender melhor o mundo, e acabar nos entendendo melhor também. Compartilho essa paixão no meu perfil do Instagram @naluflix, e também acredito que não tem como falar de arte sem falar de moda, pois a moda é uma expressão viva e dinâmica de ideias, crenças e valores de uma sociedade. No fundo, está tudo interligado! |
Se o mito de Frankenstein imaginava o nascimento de uma criatura no século XIX, Pobres Criaturas imagina o que acontece depois: o que significa, de fato, aprender a viver.

Dirigido por Yorgos Lanthimos, o filme começa em um laboratório onde nasceu Bella Baxter. Com um corpo de mulher e uma cabeça de criança, Bella aprende a falar, a andar, a comer e a experimentar os prazeres mais íntimos da existência.
Ela já tem uma aparência e biologia de uma mulher adulta, mas não sofreu nenhuma influência social sobre como deveria se comportar. Assim, com uma paixão sem repressão pelos prazeres mundanos, ela explora o mundo de forma completa: se encantando pelos pastéis de nata de Portugal, perdendo o chão com a pobreza de Alexandria e explorando — de forma literal — os bordéis de Paris.
E o mais legal aqui é que grande parte dessa transformação da personagem é contada pelas roupas.
O figurino, criado pela figurinista Holly Waddington, parte da silhueta da moda vitoriana, mas a distorce de forma deliberada. As roupas parecem históricas, mas nunca totalmente corretas: há volumes exagerados, mangas enormes, proporções estranhas.
No início do filme, Bella veste vestidos quase infantis, simbolizando a inocência de quem ainda não conhece os códigos sociais que moldam o comportamento feminino. Em contraponto à delicadeza esperada de uma dama do século XIX, Bella corre, pula, ocupa espaços. E os vestidos, com suas formas quase caricaturais, refletem esse corpo ainda indomado.
Mas à medida que Bella descobre o mundo — viajando, apaixonando-se, confrontando limites — as roupas também mudam. Elas ficam mais ousadas, mais estruturadas, mais conscientes do próprio corpo. O figurino acompanha a formação da sua identidade.
Como em muitos outros filmes do Lanthimos, o diretor não se preocupa apenas em recriar uma época, mas em reinventar um universo visual. Em Pobres Criaturas, o figurino não é apenas ornamentação, mas sim um diário visual da liberdade crescente da Bella.
The art of costume

Se em Pobres Criaturas o figurino acompanha o nascimento de uma identidade, há muitos outros filmes em que as roupas também funcionam como uma linguagem. Selecionei aqui mais três exemplos elegantíssimos:
Trama Fantasma, 2017: Um dos meus filmes favoritos. Dirigido por Paul Thomas Anderson, o longa acompanha um estilista obcecado pelo detalhe e controle. O figurino foi desenvolvido por Mark Bridges, que recriou a alta-costura londrina dos anos 1950.
Maria Antonieta, 2006: Com o toque especial da diretora Sofia Coppola, essa versão de Maria Antonieta usa e abusa de tons pastel, rendas e laços para transformar a jovem rainha em um ícone de excesso e juventude. O figurino criado por Milena Canonero até levou o Oscar na categoria.
A Idade da Inocência, 1993: Nesse romance de época de Martin Scorsese, as roupas revelam status, moralidade e pertencimento social. A figurinista Gabriella Pescucci — que também venceu o Oscar — conseguiu recriar com detalhes a moda da elite nova-iorquina da década de 1870.

Chanel
Se você acompanha essa newsletter há algum tempo você sabe que aqui é quase um fã clube declarado para o Matthieu Blazy… Mesmo que nessa temporada o meu favorito foi Dior, eu não poderia deixar de dizer o quanto Chanel foi surpreendente, mais uma vez.
Matthieu é o melhor quando se trata de pesquisar o passado da marca e trazer uma releitura moderna. Nessa coleção, ele se inspirou em uma entrevista que Coco Chanel concedeu ao jornal francês Le Figaro nos anos 1950.
“A moda é ao mesmo tempo lagarta e borboleta”, disse.
“Seja lagarta durante o dia e borboleta à noite. Não há nada mais confortável que uma lagarta e nada mais feito para o amor do que uma borboleta. Precisamos de vestidos que rastejem e vestidos que voem. A borboleta não vai ao mercado, e a lagarta não vai ao baile.”
Okay Matthieu, não vejo a hora de ser uma lagarta ou borboleta usando seus casaquinhos e saias de cintura baixa.

Miu Miu
Our fashion genius, Miuccia Prada did it again. Sempre com uma coleção inteligente, Miu Miu apresenta FW26 apontando a nossa pequenez no mundo. O corpo – e, sobretudo, a mente – são nossos maiores abrigos em tempos de instabilidade global.
Uma ressonância emocional, um sentimento transmitido através das roupas. Nunca vulnerável, o corpo é envolvido por um romantismo poético, mas também por força. Ao reconhecer a própria delicadeza, cada indivíduo ainda é investido de autoridade.
A cenografia dentro do Palais d’Iéna apresenta uma floresta selvagem inserida em um palazzo — dois panoramas simbólicos de grandeza e imensidão. Assim como as roupas, o ambiente enfatiza sua individualidade singular, seus corpos e suas mentes.


Ao invés de from my feed to yours, essa semana trouxe o from my closet to yours.
Recebi umas perguntas sobre meus lenços e bandanas que uso sempre, e decidi vir aqui indicar onde comprar. A maioria dos meus eram da minha mãe e ela me deu, mas fiz uma boa pesquisa e encontrei uns lindos. Open your wishlist. You’ll want this.


👀 Por que tudo fica melhor no detalhe? Matthieu, the man that you are!
🇫🇷 Se você for para Paris: um guide feito por ninguém mais ninguém menos do que Dua Lipa.
🧵 Make it yours! Amei essa Fendi que você borda como quiser. Única e personalizada.
SKIP THE SMALL TALK
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Editor’s note
![]() | Oie! Eu sou a Pri Cao, e eu escrevo, edito e faço a curadoria de cada conteúdo que você encontra por aqui! Sempre fui apaixonada por moda e por toda liberdade criativa que ela nos proporciona. A ideia da The Setters é trazer conteúdos autênticos, com dados e estudos, mas também com a minha visão de mundo. Espero que você goste de ler essa newsletter tanto quanto eu gosto de escreve-la! ❤️ Vou deixar aqui o link das minhas redes sociais para quem quiser trocar (sempre estou aberta e amo muito) |
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