moda como diplomacia

como as roupas podem exercer poder

hey!

A moda é uma poderosa ferramenta política. Ao longo da história, muitas figuras de poder a usaram para comunicar mensagens que, muitas vezes, passam despercebidas. A moda como instrumento de diplomacia existe há séculos, mas foi a rainha Elizabeth II quem consolidou essa estratégia na era moderna. Como a monarca com o reinado mais longo da história britânica e a primeira a acompanhar de perto a evolução da mídia e da fotografia, ela deu uma verdadeira aula sobre como usar a moda a seu favor.

Convidei a Paula para complementar essa conversa e explicar como isso se conecta ao conceito de soft power.

Além disso, tem meus cool finds, smart finds e a review do meu desfile favorito de alta-costura.

Espero que gostem! :)

A moda é uma das linguagens visuais mais carregadas de símbolos: as roupas moldam a forma como vemos o mundo e, também, a forma como o mundo nos vê. Essa comunicação através do vestir se torna ainda mais evidente no campo político, onde cada escolha de roupa pode carregar um recado diplomático. É desse cruzamento entre moda e poder que nasce o conceito de sartorial diplomacy (diplomacia do vestuário)

Uma escolha cotidiana do que vestir, que muitos podem considerar não intencional, é capaz de comunicar autoridade, respeito, identidade e pertencimento, fazendo com que as pessoas respeitem mais quem a usa, ou se sintam acolhidas por ela. No meio político e monárquico, essa diplomacia do vestuário é amplamente utilizada — e nenhuma figura contemporânea a empregou de forma tão consistente quanto Elizabeth II.

Suas escolhas minuciosas em cores, tecidos, modelagens e acessórios eram cuidadosamente planejadas para comunicar respeito, identidade e simbolismo. Seu guarda-roupa tornou-se um exemplo clássico de diplomacia sartorial: o uso estratégico das roupas para reforçar autoridade e transmitir mensagens sem precisar dizer nada.

Por ter tido o reinado mais longo da história britânica e ter vivenciado a expansão da televisão, da fotografia e do vídeo, Elizabeth II foi a primeira monarca britânica a dominar plenamente a diplomacia visual, tornando-se o principal exemplo de como usar a moda a seu favor.

O marco de sua influência como ícone de moda foi sua coroação, televisionada em 1953 — a primeira da história a ser transmitida ao vivo, o que aproximou a monarquia do público global. Para a ocasião, Norman Hartnell, estilista que já vestia Elizabeth desde seus tempos de princesa, criou um vestido que incorporava flores representando cada uma das nações que compõem o Reino Unido, em um gesto cuidadosamente pensado de diplomacia simbólica.

A parceria entre os dois já vinha de longa data: foi Hartnell quem assinou também o vestido de casamento de 1947, bordado à mão com dez mil pérolas por uma equipe de costureiras ao longo de mais de dois meses. Completando o traje da coroação, o Manto Roxo de Estado, usado na Abadia de Westminster em 2 de junho de 1953, representava a continuidade dessa tradição simbólica que acompanharia a rainha por todo o reinado.

Elizabeth II ficou conhecida pelos looks monocromáticos em cores vibrantes. Ela sempre vestia uma única cor da cabeça aos pés e o objetivo era também funcional, ser facilmente identificada em multidões. Ela tem uma frase resume essa estratégia: "I have to be seen to be believed." ("Preciso ser vista para ser acreditada."). As cores carregam significados simbólicos e cada escolha de cor utilizada, reflete alguma intenção por trás.

Por exemplo, em 2017, durante a abertura do Parlamento, Elizabeth II apareceu usando: casaco roxo; chapéu adornado com flores amarelas. Muitos interpretaram o visual como uma referência às cores da União Europeia. Apesar de sua obrigação constitucional de manter neutralidade política, o episódio mostrou como suas escolhas de vestuário eram constantemente lidas como mensagens simbólicas.

Durante visitas oficiais, adaptava suas roupas para homenagear o país anfitrião. Fazia isso por meio de cores nacionais; flores, tecidos, técnicas artesanais, referências à cultura local. O objetivo era demonstrar respeito, admiração e reconhecimento pela identidade de cada país. Quando visitou a Austrália, vestiu dourado, uma das cores nacionais, também usou um broche em forma de golden wattle, símbolo nacional australiano. Já no Canadá, incorporou folhas de bordo (maple leaves) em seus looks, e na Índia vestiu um modelo de silhueta inspirado no sari.

Seus famosos broches funcionavam como mensagens diplomáticas silenciosas. Cada peça possuía história, significado ou relação com determinados países e ocasiões. Tornaram-se um dos elementos mais estudados de sua comunicação visual.

Sua influência não vinha da imposição, mas do simbolismo, da tradição e da cultura. Cada escolha era cuidadosamente harmonizada. Elizabeth II usava consistentemente criações de estilistas britânicos. Dava preferência a fibras produzidas no Reino Unido, como: lã; e tweed. A estratégia fortalecia a imagem da marca "Britain" no exterior.

Elizabeth II também reutilizava muitas roupas, essa repetição transmitia continuidade, responsabilidade, e respeito pelas peças. Esse hábito também é observado em outros membros da família real, como o rei Charles III e a princesa Anne.

A trajetória de Elizabeth II mostra como o vestuário pode ser, ao mesmo tempo, símbolo de poder e instrumento de aproximação. Essa relação entre moda e monarquia se estendeu até o fim de seu reinado, e aos 91 anos, a rainha fez sua única aparição na London Fashion Week, em 2018, para entregar pessoalmente a primeira edição do Queen Elizabeth II Award for British Design, prêmio criado para reconhecer o papel da moda britânica na cultura e na diplomacia do país.

Mais do que uma figura vestida por grandes estilistas, Elizabeth II soube transformar cada peça de roupa em mensagem e transmitir o verdadeiro significado de diplomacia do vestuário.


Shop my cool finds 🙂 

Vestido Zara: lindo e muito chic!!!

Sapatilha Arque: super versátil da para usar com muitos looks, e amei a cor

Blusa NV: achei a modelagem linda e está em sale

Jaqueta H&M: linda e única. faz o look completamente

Bolsa Mury: amei a cor e a modelagem, e o preço tá ótimo :)

Moda como soft power: como países constroem desejo cultural e o que isso ensina sobre a nossa própria imagem w/ Paula Gusmão

Oii! Eu sou a Paula Gusmão, tenho 27 anos, sou formada em Comércio Exterior, modelo aposentada e uma grande curiosa em tempo integral 🥰. Costumo dizer que gosto de saber pelo menos um pouco sobre tudo, porque acho incrível conseguir ter conversas interessantes com pessoas diferentes. Amo história, arquitetura, ciência, arte e qualquer assunto que me faça abrir dezenas de abas no navegador para pesquisar mais. No começo de 2026, resolvi compartilhar esse meu lado na internet e, desde então, venho construindo uma comunidade maravilhosa de pessoas curiosas, interessantes e interessadas em aprender coisas novas (e justificar o seu tempo na internet com assuntos relevantes 😉). Espero que, quando você terminar esta leitura, passe a enxergar a moda por um ângulo completamente diferente. Beijos, Paula 🩷

Quando pensamos em elegância, é comum imaginarmos a França. Quando pensamos em excelência na alfaiataria ou em artigos de couro, a Itália costuma ser a primeira referência. Já quando falamos em tendências, entretenimento e cultura pop, os Estados Unidos dominam o imaginário coletivo.

Mas você já parou para pensar por que essas associações são tão automáticas?

Elas não surgiram por acaso. São fruto de uma construção de imagem que atravessa décadas e, em alguns casos, séculos. Mais do que exportar produtos, esses países aprenderam a exportar uma identidade, um estilo de vida e uma percepção. É exatamente sobre isso que trata um conceito muito importante das relações internacionais: o soft power.

O termo foi criado pelo cientista político Joseph Nye, professor da Universidade de Harvard, no final da década de 1980. Até então, o poder de uma nação era medido principalmente pela força militar e econômica, o chamado hard power. Nye propôs uma nova perspectiva: um país também pode influenciar o mundo por meio daquilo que desperta admiração.

Em vez de impor, ele atrai.

Em vez de obrigar, ele inspira.

Cultura, cinema, música, gastronomia, educação, esportes e, naturalmente, a moda tornam-se ferramentas de influência internacional.

Embora o conceito seja relativamente recente, sua aplicação é muito mais antiga.

No século XVII, Luís XIV, conhecido como o Rei Sol, compreendeu como poucos o poder da imagem. Em seu reinado, a corte de Versalhes transformou o luxo em uma estratégia de Estado. O rei incentivava a produção de tecidos, rendas e joias francesas, estabelecia rígidos códigos de vestimenta e fazia da sofisticação uma demonstração de poder político.

Vestir-se à moda francesa tornou-se um símbolo de status entre as elites europeias.

Ao longo dos séculos, essa construção consolidou Paris como sinônimo de elegância e refinamento. Não é por acaso que algumas das mais tradicionais maisons de alta-costura nasceram na França. O país fez da moda uma extensão de sua identidade cultural.

A Itália seguiu um caminho diferente.

Após a Segunda Guerra Mundial, o país fortaleceu a ideia do Made in Italy, transformando a origem de seus produtos em um verdadeiro selo de excelência. Mais do que luxo, a Itália passou a vender qualidade, tradição e um profundo respeito pelo trabalho artesanal.

Cada região desenvolveu especialidades próprias, famílias transmitiram técnicas entre gerações e o cuidado com os detalhes tornou-se parte da reputação italiana. O valor não estava apenas no produto final, mas em toda a história que existia por trás dele.

Já os Estados Unidos encontraram sua principal ferramenta de influência na indústria do entretenimento.

Hollywood, a televisão, a música e, mais recentemente, as redes sociais fizeram com que estilos de vida americanos fossem consumidos diariamente em praticamente todos os lugares do mundo. Celebridades passaram a definir tendências, filmes moldaram desejos e o chamado American Dream tornou-se também uma estética.

As pessoas não desejavam apenas consumir produtos americanos. Queriam consumir aquilo que aqueles produtos representavam.

A moda acompanhou esse movimento.

Hoje, três das quatro principais capitais da moda do mundo estão justamente nesses países: Paris, Milão e Nova York. Suas Fashion Weeks deixaram de ser apenas eventos voltados à indústria para se transformarem em acontecimentos culturais acompanhados pelo mundo inteiro.

Paris Fashion Week | NY Fashion Week | Milão Fashion Week

Da mesma forma, premiações como o Oscar ou eventos como o Met Gala extrapolam o universo da moda. Eles funcionam como grandes vitrines culturais, capazes de influenciar comportamentos, consolidar tendências e reforçar o prestígio de marcas, estilistas e até de países inteiros.

O mais curioso é que, na maioria das vezes, esse processo acontece de forma quase invisível.

Quando alguém compra um perfume francês, dificilmente está adquirindo apenas uma fragrância. Existe o desejo de consumir a elegância associada à França.

Quando escolhe uma bolsa italiana, muitas vezes também busca a tradição do artesanato e da excelência.

E quando veste uma marca americana, frequentemente compra um pouco do estilo de vida construído pelo cinema, pela música e pela cultura pop.

No fim das contas, esses países não exportam apenas produtos. Eles exportam significados.

Ao observar como as grandes potências constroem sua imagem diante do mundo, fica quase inevitável fazer um paralelo com a nossa própria vida. Assim como uma nação busca ser reconhecida por determinados valores, cada pessoa também constrói, consciente ou inconscientemente, a forma como é percebida pelos outros.

A moda é um reflexo da personalidade, mas ela pode ir além disso. Mais do que refletir quem você é, ela pode comunicar quem você deseja ser e como gostaria de ser percebido nos diferentes ambientes que frequenta, seja no trabalho, entre amigos ou em qualquer outro contexto social. Antes mesmo de dizermos uma palavra, nossa imagem já transmite mensagens sobre nós.

Isso não significa seguir tendências ou se tornar um especialista em moda. Na verdade, trata-se de compreender a linguagem que existe por trás das roupas, das cores, das modelagens e das escolhas estéticas. Afinal, toda linguagem comunica, e a moda é uma delas.

Entender essa linguagem é uma ferramenta poderosa. Ela pode abrir portas, transmitir credibilidade, aproximar pessoas, reforçar sua identidade e fazer com que sua presença seja coerente com a mensagem que deseja passar. E isso vai muito além da vida profissional ou do sucesso financeiro. É sobre construir uma imagem autêntica, alinhada aos seus objetivos e aos espaços que você deseja ocupar.

Assim como os países mais influentes do mundo entenderam que reputação, cultura e imagem são ativos estratégicos, nós também podemos construir, de forma consciente, a maneira como somos percebidos.

Porque, no fim das contas, a moda nunca foi apenas sobre roupas. Ela sempre foi uma forma de comunicação. E quem entende essa linguagem passa a ter a oportunidade de contar sua própria história antes mesmo de dizer a primeira palavra.


At this point, vocês já sabem que eu sou uma grande fã do Matthieu Blazy. Eu consigo me emocionar em praticamente todos os desfiles dele — e, claro, este último de Alta Costura não foi diferente. Confesso que o momento em que começou a tocar Kiss Me, uma das minhas músicas favoritas, eu derramei umas lágrimas.

Matthieu tem uma capacidade rara de interpretar os códigos da Chanel e, ao mesmo tempo, apresentar uma perspectiva completamente nova, lúdica e inspiradora. Cada criação carrega um nível impressionante de detalhe. Existe uma sensibilidade no olhar dele, uma delicadeza quase instintiva — algo que parece nascer junto com a pessoa.

No desfile apresentado esta semana em Paris, Matthieu mergulhou nas referências que construíram o imaginário infantil de tantas gerações: os contos de fada.

Ele transformou roupas em um verdadeiro fairy tale. Tudo era mágico, lúdico e, ao mesmo tempo, extremamente sofisticado e de muito bom gosto. Uma fantasia construída com precisão, emoção e uma elegância que é muito Chanel.

Fiz uma análise mais profunda no Instagram, mas não poderia deixar de registrar meu fashion journal por aqui com o meu desfile favorito desta temporada de Alta Costura.

👩‍💻 Li esse texto sobre o comportamento da Gen Alpha com as redes sociais, e de como não existe um espaço exclusivo para essa geração mais nova. Vale muito a leitura.

💌 Sempre me pedem indicações de newsletters então vim indicar uma das minhas favoritas, a Keep Sake da Julianna Salguero. Gosto muito das análises e dos pontos de vista que ela compartilha, mas confesso que a minha parte preferida é a lista que ela publica no início de todo mês, com ideias e inspirações do que fazer de diferente nas semanas que estão por vir. Já virou uma leitura que espero religiosamente a cada começo de mês.

📺 Eu não sou a pessoa mais desenvolta do mundo, e muito menos a mais extrovertida. Por isso, amo o canal da Vitoria Stecca no Youtube. Ela da dicas e traz conteúdos que falam sobre oratória, comunicação e outros assuntos que conectam. Ela fala de um jeito muito didático e interessante.

📚 Não li esse livro, mas como ele ta na minha wishlist pois muita gente me recomendou, achei que seria de bom tom recomendar, já que o texto principal foi focado nela. Essa biografia da Rainha Elizabeth II é um dos poucos livros biográficos que quero ler. Pelo o que me falaram (confio no bom gosto dessas pessoas) é ótimo. A rainha: A vida de Elizabeth II

🧸 Fui assistir Toy Story 5 — e, como uma huge fan da Disney e dessa franquia, fui ao cinema achando que realmente não havia necessidade de mais um filme. Na minha cabeça, Toy Story 4 já tinha encerrado a história de forma perfeita. Mas acabei amando. aí do cinema com uma vontade genuína de largar o celular, usar um telefone de tijolo e passar mais tempo pisando na grama. Enfim, eu amei. É um filme muito fofo, emocionante e que consegue resgatar aquela sensação gostosa que faz a gente lembrar por que ama Toy Story.

Posso fazer mais uma declaração de amor pro Matthieu?

Além do desfile ter sido lindo, um dos momentos que mais me marcou foi que enquanto tudo acontecia na passarela, o artista Joel Blanc pintava a cena ao vivo.

Num mundo em que absolutamente tudo é registrado por câmeras, celulares e vídeos em tempo real, ver alguém escolher observar antes de reproduzir parece um pequeno ato de resistência.

Foi mais um momento que traduz o olhar de Matthieu. Não era apenas um desfile de alta costura em Paris, mas um encontro entre moda e magia. Ver um artista transformando aquele momento em pintura tornou tudo (ainda mais) especial.

Instagram Post

Aproveitei essa pergunta para contar que uma das minhas lojas favoritas finalmente chegou ao Brasil: a Bath & Body Works, que abriu sua primeira loja no Shopping Morumbi, em São Paulo. Minha vela favorita de lá é a Champagne Toast (sou completamente apaixonada por esse cheiro!). E, além dela, também fiz uma curadoria de outras velas que eu amo.

Espero que tenha ajudado! Se você tem alguma sugestão de guide ou se tem alguma peça que queira usar mais, me manda aqui e quem sabe não aparece na próxima edição! ❤️ 

🎧 Dicas de podcasts sobre moda. Já escutei alguns e outros estão na minha lista.

🧠 Essa agência criativa está por trás dos maiores desfiles de moda da PFW. Vale o follow para acompanhar tudo o que estão fazendo.

🎀 Essa collab da Birkenstock com a Repetto alugou um espaço especial na minha cabeça e eu não paro de pensar em como eu quero muito essa rosa com lacinho.

Referral Program

No gatekeeping here! Share your link

Aqui tem o seu link para compartilhar a The Setters com quem você conhece e desbloquear prêmios. Cada pessoa que chegar por você, conta! e dá pra acompanhar tudo em tempo real nesse contador aqui embaixo:

Editor’s note

Oie! Eu sou a Pri Cao, e eu escrevo, edito e faço a curadoria de cada conteúdo que você encontra por aqui! Sempre fui apaixonada por moda e por toda liberdade criativa que ela nos proporciona. A ideia da The Setters é trazer conteúdos autênticos, com dados e estudos, mas também com a minha visão de mundo.

Espero que você goste de ler essa newsletter tanto quanto eu gosto de escreve-la! ❤️ 

Vou deixar aqui o link das minhas redes sociais para quem quiser trocar (sempre estou aberta e amo muito)

Instagram | Tiktok | Daily

Tell me what’s on your mind!

O que achou dessa edição?

boa 

ok 

SEE YOU NEXT FRIDAY!