por que nada é novo?

depois do algoritmo, a solução se tornou igual o problema

 

hey!

Nessas últimas semanas senti meu cérebro quase derretendo de tanta informação que consumo online. E comecei a perceber como minhas melhores ideias quase sempre aparecem longe disso tudo — antes de dormir, no banho, no silêncio.

Parece que estamos vivendo uma crise coletiva de identidade e, principalmente, de repertório. Checklists para cumprir, filmes para assistir, podcasts para ouvir… e, aos poucos, a solução começa a se parecer cada vez mais com o próprio problema.

Essa foi uma reflexão que surgiu depois de ler o texto da Elen Di Lucio sobre tastemakers, e que decidi explorar por aqui.

Além disso, convidei a Jade para expandir essa conversa a partir da perspectiva da IA. Também compartilhei um pouco dos eventos da minha semana & more.

espero que gostem :)

No meio de feeds e scrolls tomados dos mesmos conteúdos, mesmos looks e mesmos segredos para viralizar, a palavra tastemakers começou a surgir pouco a pouco. No começo de uma forma silenciosa, como se fosse um segredo que estavam escondendo a sete chaves. Mas, aos poucos, o termo ganhou força e passou a circular por toda parte. Tastemakers são aquelas pessoas que não necessariamente são conhecidas por muita gente, mas que carregam algo cada vez mais raro: bom gosto, repertório e um olhar apurado.

Com a viralização do termo e do conceito, essas pessoas passaram, quase silenciosamente, a ocupar espaços antes reservados a influenciadores e celebridades. E, junto com isso, cresceu também o desejo de se tornar uma delas. De repente, a internet se encheu de conteúdos prometendo ensinar o caminho: como ter bom gosto, construir repertório e desenvolver um olhar apurado.

O cansaço fashion nos fez buscar referências que possuíam um diferencial, um olhar único, mas, a partir do momento em que se cria uma receita para se tornar uma dessas pessoas, a solução acaba se tornando igualzinha ao problema que estava tentando solucionar.

As palavras-chave das pessoas de bom gosto, que são a autenticidade e a pessoalidade, foram sumindo aos poucos, e o que nos restou foi uma checklist desconectada da individualidade. Escute esse podcast, leia esse livro, veja esse filme, compre essa roupa… No fim, terminamos com várias coisas “certas” que são completamente desconexas de quem realmente somos.

“Somos guiados por algoritmos, então tudo o que gostamos e tudo o que conhecemos existe porque outras pessoas estão colocando isso dentro de nós.”

Miuccia Prada

Em um mundo cada vez mais desesperado por pertencer, o medo de parecer irrelevante, com tantas referências cultas na internet, faz com que as pessoas fiquem sedentas por repertório. Mas um repertório pronto. Um repertório que mandam você ter. A mensagem é “desenvolva sua própria perspectiva”, mas o que é entregue parece mais um currículo.

A habilidade de citar designers, filmes estrangeiros e cafeterias boutique virou uma forma silenciosa de gatekeeping. O gosto parece ser uma performance pública. Não é mais algo que você tem, é algo que você performa.

Saber citar os designers certos, reconhecer referências de um desfile de 1993, conhecer as marcas francesas favoritas das it girls. Seu feed precisa parecer interessante, suas playlists precisam ser inteligentes, seu filme favorito precisa ser complexo o suficiente para justificar três revisitas. Seu guarda-roupa precisa ser garimpado — de preferência em alguma cidade pequena da Europa onde ninguém do seu círculo social jamais pisou.

De repente, ter “gosto” deixou de ser apenas um traço de personalidade — virou uma habilidade comercializável. Você não apenas gosta de algo — você o apresenta.

Ao mesmo tempo em que te passam uma fórmula para ser interessante, a sociedade nunca se sentiu tão sozinha nem tão sedenta por pertencer a comunidades. E, para isso, vamos atrás das referências de cada uma delas, tentando gostar, nos forçando a falar as palavras mais difíceis e a citá-las no momento ideal. Mas queremos nos encaixar ou realmente gostamos do que estamos vendo?

Copiar pessoas que você acha que têm bom gosto não é um atalho para desenvolver o seu.

- Tamsin Wong

Bom gosto não se compra, e nem se aprende. Ele se forma através da experiência: fuçar o guarda-roupa da sua mãe e ouvir as histórias por trás dele; decidir ler um livro que ninguém te indicou só porque a capa te chamou atenção na livraria. Permitir que a curiosidade e o seu instinto floresçam. Seu gosto é autobiográfico

A admiração é onde o gosto começa, e a cópia é onde ele termina. Não terceirize seu gosto, ele está esperando para ser descoberto. Não copie o look da influenciadora, não pergunte pro ChatGPT qual calça combina com sua blusa, não procure outfit inspo no Pinterest antes de se vestir para algum evento.

Quando a internet não existia, o nosso gosto pessoal era instintivo, ele habitava nos CDs comprados e livros passados de mão em mão. Em tardes de pijama vendo qualquer coisa que seu irmão mais velho estivesse assistindo. Na receita que você ajudou (ou atrapalhou) sua mãe a fazer. Sabíamos do que gostávamos, era instintivo.

Seu gosto não está no algoritmo, nem na checklist, nem no repertório que te entregaram pronto. Ele está nas coisas que você viveu, naquilo em que o seu olhar demorou mais e que o seu instinto achou bonito sem precisar de explicação. Está nas coisas que pertencem só a você. Por isso, viva ao máximo aquilo em que acredita, treine o seu próprio instinto, cultive um olhar atento e permita-se sentir tédio. É no silêncio, na curiosidade e no tempo livre de performance que o gosto realmente se forma.


Shop my cool finds 🙂 
  • Casaco de lã Zara: amei as cores e a composição é 100% lã, ou seja, vale o preço

  • Sapato Ugg: se tem algo no frio que eu uso quase todos os dias, é a minha Ugg. Adorei essa que é slip on.

  • Calça Le Lis Blanc: um achado em sale

  • Casaco Zara: completamente apaixonada por esse casaco. uma peça única para se ter no armário.

  • Bolsa Basiq: a cor e o tamanho são ótimos.

Alguns scrolls valem a pena w/ Jade Lanzoni

Sou cofundadora da We Owners e atuo com estratégia de marca desde 2018. Já formei mais de 8.000 empreendedoras em treinamentos de branding, design e comunicação. Amo criar, correr sem me preocupar com pace, passar horas fazendo nada em meio à natureza, escutar R&B e conversas profundas acompanhadas de um ótimo vinho são, provavelmente, o meu hobby favorito.

Há alguns dias, uma publicação me fez parar no feed.

Uma foto da tela de um computador com o Google Docs aberto (na hora já me chamou a atenção só pelo fato: opa, parece ter vindo de alguém que realmente escreve um texto sozinho em 2026 e não ser um vídeo cheio de legendas rápidas, fontes coloridas surgindo sobre a tela e vários cortes que parecem não deixar nenhuma frase chegar ao fim, mas isso é papo para outra conversa).

Na tela estava escrito: "TASTE IS HAVING THE CONVICTION TO DO SOMETHING THE ALGORITHM WOULDN'T." (“Gosto é ter a convicção de fazer algo que o algoritmo não faria.”) Em seguida, descobri que se tratava de um artigo de Amy Francombe, colunista da Vogue Business.

O artigo argumenta que ter gosto não é simplesmente conhecer designers e acumular referências, é a curadoria e o uso desse conhecimento, o que leva à expressão do gosto. Vale lembrar que gosto, aqui, é mais do que um marcador estético: é um modelo de pensamento para tomada de decisões.

E que o grande diferencial nessa era dominada pela IA é ter convicção das suas ideias e apostar nelas mesmo quando isso vai contra o mercado, o algoritmo ou a lógica comercial de curto prazo: entrar numa trend, fazer alguma ação por FOMO com intenção meramente comercial e acabar diluindo a percepção e o valor construídos no longo prazo.

Comecei a refletir sobre a maneira como as marcas, pessoais e institucionais, têm usado a IA e sobre os conteúdos que rodeiam esse tema no Brasil.

Posts que prometem uma lista de prompts que vão resolver o seu processo criativo: é só comentar "Eu quero" e eu te mando. E lá estão, milhares de comentários com o tal "Eu quero".

O mais curioso (podemos dizer assim) é que a maior dor e o maior desejo de qualquer um que quer mostrar o seu trabalho na internet são exatamente os mesmos: conseguir se diferenciar, se destacar, ser visto, construir uma comunidade, atrair pessoas que se conectam com você.

A contradição está posta. Mas tudo bem, somos incoerentes por natureza. O ponto aqui é que, com um pouco mais de conhecimento (e sabedoria), conseguimos entender onde posicionar cada um no processo criativo: o humano e o robô.

Compreender que a IA funciona a partir de motores de probabilidade, treinados para prever as respostas mais prováveis e, principalmente, para obedecer ao que você pede, é fundamental. Isso, dentro de um contexto de criação, vai sempre produzir um resultado genérico, previsível e seguro.

Ou seja: ela vai naturalmente te orientar a seguir o que o mercado já faz. É nesse lugar que você se torna só mais um.

A não ser que seja você, o humano, quem traga um outro ângulo, para que ela possa abrir uma porta diferente e acessar outro modelo de pensamento, com base na sua própria curadoria, repertório, vivência e ponto de vista.

O problema é que a maioria das pessoas nem sequer questiona a IA, nem reflete se gosta ou não daquela ideia (alô, pensamento crítico?), nem considera fazer algo diferente do que ela propõe, que é justamente o cerne de uma ideia original. Se a IA não consegue acessá-la, é porque ela vem de um lugar único.

E aí chegamos ao ponto da convicção: a capacidade de dizer não, com segurança, para uma ideia que a IA sugeriu, e a convicção de dizer sim para aquela que veio de você. 

Esse senso de discernimento, de perceber que uma ideia é repetitiva, que não tem fit com quem você é, que não constrói o atributo que você deseja, que confunde o seu posicionamento na cabeça das pessoas, que vai numa direção oposta aos seus valores ou que simplesmente é boring as f*ck. Isso é ouro em tempos em que tudo tende a ficar igual.

"Se gosto é convicção, então ele exige a capacidade de discordar e apostar em si mesmo", um highlight importante do artigo de Amy.

Desenvolver o seu taste é o que te permite não só resistir às dinâmicas do mercado, mas também se tornar mais sólido em cada forma com que você responde a elas.

Enquanto a maioria tenta encontrar o melhor prompt dentro da tela, um bom conselho seria desenvolver a sua melhor visão fora dela. E, talvez ainda mais importante: valorizar, lapidar e sustentar essa visão a longo prazo.

Essa semana fui convidada para um talk especial no Mata Lab, um espaço em São Paulo que vale conhecer para quem gosta de moda, ao lado de Airon Martin, fundador e diretor criativo da Misci. A conversa girou em torno da brasilidade, e esses foram alguns dos insights que ficaram comigo:

A moda é um dos maiores atalhos de pertencimentoo. Muitas vezes é mais fácil vestir algo que sinalize um grupo do que, de fato, mergulhar em uma cultura e encontrar naturalmente o seu lugar dentro de uma comunidade. Talvez por isso tanta gente use a moda como escudo: uma forma de performar pertencimento.

Posicionamento tem muito mais a ver com saber dizer não do que sim. Recusar o que não faz sentido, entender o próprio lugar e ter clareza sobre onde se quer chegar.

E, principalmente, olhar para dentro antes de olhar para fora. O Brasil é imenso, complexo e rico em referências. Antes de buscar repertório no mundo, vale reconhecer a potência cultural que já existe aqui.

Outro evento super legal que tive essa semana foi a festa do pijama da Intimissimi.

Ganhei vários gifts, e fiquei de mostrar aqui tudo o que veio dentro da sacola, tudo no mood do evento

  • Chá verde Ahmad Tea

  • Meia térmica Calzedonia

  • Meia calça Calzedonia

  • Spray hidratante para cabelo Semi di Lino

  • Espuma de banho Floa

  • Reparador de colageno Adcos

  • Lip balm Adcos

  • Proteina de cabelo Hidratei

  • Doces fit Pinati

  • Pantufa personalizada Intimissimi

     

#follow4follow

O Bruno Casanovas, co-fundador da Nude Project, é uma das maiores referências de inovação quando o assunto é marketing.

A campanha da vez é sobre voltar as raizes do Instagram, quando tudo parecia mais legal e menos performático — o que de fato era.

A ideia é trazer de volta a estética do início do Instagram e fotografar a campanha toda em um Iphone 4.

Ele vai postar tudo durante essa viagem. Vale a pena acompanhar!

Instagram Post

Não sei exatamente o tamanho do seu computador, mas selecionei algumas que são quase que universais em relação a isso.

1- Zara | 2- Schutz | 3- Isabel Marant | 4- Insider

Espero que tenha ajudado! Se você tem alguma sugestão de guide ou se tem alguma peça que queira usar mais, me manda aqui e quem sabe não aparece na próxima edição! ❤️ 

🍸 Tudo o que nós — garotas nostalgicas —queriamos! Uma campanha bem Sex and the City

🇧🇷 Quantas havaianas são necessárias pra fazer a bandeira do Brasil na última campanha? 4500!

Referral Program

No gatekeeping here! Share your link

Aqui tem o seu link para compartilhar a The Setters com quem você conhece e desbloquear prêmios. Cada pessoa que chegar por você, conta! e dá pra acompanhar tudo em tempo real nesse contador aqui embaixo:

Editor’s note

Oie! Eu sou a Pri Cao, e eu escrevo, edito e faço a curadoria de cada conteúdo que você encontra por aqui! Sempre fui apaixonada por moda e por toda liberdade criativa que ela nos proporciona. A ideia da The Setters é trazer conteúdos autênticos, com dados e estudos, mas também com a minha visão de mundo.

Espero que você goste de ler essa newsletter tanto quanto eu gosto de escreve-la! ❤️ 

Vou deixar aqui o link das minhas redes sociais para quem quiser trocar (sempre estou aberta e amo muito)

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