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opressão ou força?
a dualidade da história do corset

hey!
estou querendo escrever sobre esse tema desde que assisti Jane Eyre — tem uma cena envolvendo um corset que me marcou muito. Fui pesquisar, refleti bastante, e acredito que essa é uma das peças que mais materializa um movimento social em relação ao feminino.
Para essa edição, convidei a Gabi Helito, dona da Le Shay, para contar a inspiração por trás dos corsets da marca dela.
Também tem um quadro novo com tudo de legal que consumi essa semana.
espero que gostem :)


Existe uma peça de roupa que ocupa, há séculos, um lugar ambíguo no imaginário coletivo: ícone de sensualidade e, ao mesmo tempo, instrumento de dominação e opressão masculina. Enquanto Madonna usa o espartilho para cantar músicas de liberdade feminina, em muitos filmes e séries, a peça funciona como uma metáfora visual da prisão emocional feminina.
O espartilho — ou corset — tem uma origem muito mais antiga do que imaginamos. As primeiras peças semelhantes ao que hoje conhecemos aparecem representadas em pinturas da Grécia Antiga e até do início da Idade Média. Mas foi entre 1500 e 1550 que temos os primeiros registros oficiais da peça — na época chamada de bodies — extremamente rígida e usada para moldar o torso em um formato cônico.
Naquela época, os corsets eram feitos de baleen — placas flexíveis de queratina que ficam na boca de baleias. O item era usado inicialmente por aristocratas da Espanha e Itália, e pela difícil produção da peça — a caça das baleias era muito cara e durava longos meses, o corset era praticamente um item de luxo.
A criação da peça foi, a principio, para corrigir a postura — que precisava ser altiva e artificial, principalmente para a aristocracia. A auto representação e a maneira de se portar eram essenciais para essa classe.
Ao longo dos anos, o corset começou a ser produzido com outros materiais, e com isso, começou a atingir outras classes. A popularização foi tanta que médicos passaram a difundir a ideia de que o corpo humano era naturalmente fraco e precisava de suporte externo — argumento usado para justificar o uso da peça desde a infância. Meninos e meninas começavam a usar o body a partir dos 3 anos: os meninos paravam por volta dos 6 ou 7 anos, enquanto as meninas, consideradas mais frágeis, muitas vezes o usavam pela vida toda.
Durante a Revolução Francesa, muitos revolucionários — principalmente a burguesia — queriam acabar com os privilégios aristocráticos, então qualquer símbolo de aristocracia deveria ser destruído, e isso gerou o sumiço dos corsets. A ideia agora era de corpos livres, sem amarras. Nesse momento, o corset representava a opressão e os privilégios da aristocracia. Foi a primeira vez, em 300 anos, que a peça foi abandonada pelas mulheres."
Em 1810, o corset reaparece em outro formato — agora separando os seios e com uma silhueta de ampulheta alongada até os quadris. Nessa época, a peça ainda era chamada de stays. Ao longo das décadas seguintes, o formato vai enfatizando cada vez mais a cintura: em 1840, a invenção dos ilhoses reforça essa aproximação com a silhueta de ampulheta, e em 1850 a peça perde as alças e passa a ser chamada de corset.

Durante a Primeira Guerra Mundial, o corset entra em declínio á medida que as mulheres passam a ocupar o mercado de trabalho. Com homens no front, mulheres foram para fábricas, hospitais, transporte e escritórios. Corsets rígidos eram desconfortáveis e nada práticos para esse tipo de trabalho. Mobilidade virou prioridade. Com isso, a silhueta ideal começou a mudar: menos curvas exageradas, linhas mais retas e soltas.
Outro fator que ajudou no abandono completo do corset naquela época, foi o estímulo à prática esportiva entre as mulheres. Por muito tempo, o acesso feminino aos esportes foi extremamente limitado: quando jogavam tênis, por exemplo, as mulheres usavam salto alto e saia longa. Com o passar dos anos, isso foi mudando — o ciclismo, em especial, teve papel importante nessa virada a partir da década de 1890 —, e o uso do corset se tornou cada vez mais incompatível com a movimentação exigida pelos esportes
Só fomos ver a peça de novo em 1947, quando Christian Dior trouxe uma silhueta chamada de New Look, marcada por uma cintura extremamente fina — alcançada com o uso de espartilhos por baixo da roupa, como o waspie e o guêpière. Mas o corset como peça visível, de moda, só volta a aparecer de fato na década de 1980, com o movimento punk.
Vivienne Westwood, Mugler e Jean Paul Gaultier são alguns dos nomes que trouxeram a peça — originalmente criada como underwear — para o outerwear. Agora, usar corset era fashion e sinônimo de rebeldia, o que é irônico, já que por muito tempo a peça foi considerada símbolo de opressão feminina.
Em 2021, a Lyst reportou um aumento de 123% nas buscas por corsets logo após a estreia da primeira temporada de Bridgerton na Netflix — um fenômeno que se repetiu com a segunda temporada. Hoje, o uso do corset é totalmente voltado para estilo, até porque sua funcionalidade original foi substituída por cirurgias plásticas, dietas e canetas emagrecedoras.
O irreal e o perfeccionismo impostos às mulheres sempre estiveram presentes — seja de forma explícita, como o uso do corset para se atingir uma postura e um corpo 'ideais', seja através do incentivo ao uso de medicamentos e cirurgias, na busca por um padrão que não existe na realidade
Ao longo de todo esse tempo, alguns movimentos se materializaram em peças, e o corset é um desses itens. Hoje, em diversos filmes, ele aparece representado em cenas de dor e prisão feminina — ou, quando é retirado, em cenas que simbolizam libertação.
Quando olhamos para trás e vemos sua história, podemos pensar que era uma época muito diferente da que vivemos. Mas, quando analisamos com atenção, as imposições e expectativas sobre nós ainda são as mesmas. Hoje temos a opção de não usar algo, ou de protestar contra isso — mas a expectativa sempre existiu, e sempre vai existir.


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Inspiração dos corsets w/ Gabi Helito
![]() | Meu nome é Gabriela Helito, sou fundadora e diretora criativa da Le Shay, marca de moda autoral que se inspira no universo das memórias afetivas e do artesanato brasileiro para expressar o afeto nas roupas. |
O primeiro corset que desenvolvemos na Le Shay foi criado em 2022 e até hoje é uma das peças mais importantes da marca.
A Le Shay é um diário aberto, uma exposição de experiências íntimas minhas que eu acredito que se comunicam com um universo imaginativo comum - a casa de vó, o afeto materno, o romance…
O corset surgiu na marca junto de outras peças que fazem referência ao vestuário de moda intíma, sutiens, calcinhas, samba canção, cinta liga e corset, na expectativa de expressar a intimidade das memórias expostas, ou seja, o que era roupa de baixo agora sendo usado a vista de todos.
Além de falar sobre intimidade, trazer o corset para a marca é uma busca pela ressignificação de uma peça extremamente feminina que quando criada refletiu a opressão aos corpos femininos, seja na tentativa de acentuar as curvas, causando desmaios dentre outros mal estares, quanto na representação de um padrão único para o formato de corpo de uma mulher.
O corset na Le Shay é uma exposição da intimidade no vestir-se e também uma possibilidade de ser feminina de um ponto de vista feminino que celebra o ser mulher.


Como vocês sabem (e amam) toda semana eu trago indicações de roupas e acessórios que chamaram minha atenção por aí. E o feedback de alguma de vocês na edição passada me deu uma ideia: por que não abrir espaço também para as coisas legais e inteligentes que eu venho consumindo?
Então nasce o Smart Finds Friday: toda sexta, além das indicações de sempre, eu trago livros, filmes e artigos que valeram meu tempo (e podem valer o seu também). Nem sempre relacionado a moda, mas sempre construindo parte do universo The Setters.

📲 Voicemails for Isabelle: provavelmente você já viu algo sobre esse filme no seu feed, mas vim reforçar que vale muito a pena assistir. A história é linda e sensível. Os personagens são muito bem construídos — e lindos, rs. Virou meu filme de romance favorito dos últimos tempos. Está disponível na Netflix.
🐬 Nossos oceanos: literalmente nada a ver com moda, mas quando eu era mais nova eu queria muito ser bióloga marinha, então eu adoro assistir documentários e filmes sobre o fundo do mar. Minha amiga me indicou essa série, que explora os 5 oceanos em forma de histórias. O Barack Obama que narra, e ele vai contando sobre os animais em uma narrativa muito interessante e envolvente. Eu amei.
📚 Dois clássicos que eu amo e recomendo de coração: Jane Eyre e O Morro dos Ventos Uivantes. Escritos por irmãs — Charlotte e Emily Brontë —, os dois livros ganharam adaptações para o cinema (das quais confesso não ser muito fã), mas ambas têm uma cena em que o espartilho aparece como símbolo dessa prisão feminina. Foi isso que me fez lembrar de indicá-los por aqui.
📖 Vi esse post sobre livros e revistas não tão óbvios para ler se você ama moda, e já adicionei todos na minha wishlist.
🎨Já fiz alguns cursos no MIS (Museu de Imagem e Som) e adorei todos, vi esse no site e parece ser muito interessante. Amo estudar arte porque sempre existe muita relação com moda! Ele é um curso online, então da para todo mundo fazer.
✂️ Muitas vezes me pego buscando referência de pessoas que criam coisas manualmente, e eu amo seguir a Ania. Ela produz conteúdo de uma forma única, muito divertida. e fora do óbvio, amo tudo o que ela faz. Super vale o follow!

Com ativações em Tóquio, Paris, Londres, Xangai e Nova York, a Acne Studios criou uma Acne Paper Pink Library em cada cidade, adaptando o conceito a diferentes contextos urbanos. A ideia é promover a Acne Paper Issue 21: Autoportrait e o 30º aniversário da maison sueca.
A ativação celebra a atmosfera criativa que moldou a Acne Studios desde sua fundação em Stockholm, em 1996.
Adoro ver marcas que trazem experiências diferentes para o mundo real, ao invés de investirem no que está todo mundo fazendo.
A Acne Studios tem sua revista fisica há anos (confirmar isso) e no tempo em que dizem que print is deade, eles vao la e investem muito dinheiro nas principais cidades do mundo para promover um item que eles vendem esporadicamente, mas que traz muito awareness e reforça a identidade da marca. Agora quando voce ver uma roupa deles, vai lembrar que tudo é craft e unico, por causa da ativacao da livraria.


Confesso que não sou muito a pessoa do relógio. Eu acho lindo e muito chic nos outros, mas não tenho o costume de usar. Eu acho lindo os que são mais finos e delicados, por isso minha seleção é apenas desse estilo. Espero que ajude 🙂

Saint German | Seculus | Vivara | Vivara | Monte Carlo
Espero que tenha ajudado! Se você tem alguma sugestão de guide ou se tem alguma peça que queira usar mais, me manda aqui e quem sabe não aparece na próxima edição! ❤️

🧖♀️ Esse evento para o novo Dior SPA foi o que eu mais gostei nessa semana. Tudo lindo e de muito bom gosto.
🌙 O itinerário de hotéis da Dua Lipa na sua honeymoon! I wish…
🐩 A Hermès fez a campanha mais fofa dos últimos tempos
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![]() | Oie! Eu sou a Pri Cao, e eu escrevo, edito e faço a curadoria de cada conteúdo que você encontra por aqui! Sempre fui apaixonada por moda e por toda liberdade criativa que ela nos proporciona. A ideia da The Setters é trazer conteúdos autênticos, com dados e estudos, mas também com a minha visão de mundo. Espero que você goste de ler essa newsletter tanto quanto eu gosto de escreve-la! ❤️ Vou deixar aqui o link das minhas redes sociais para quem quiser trocar (sempre estou aberta e amo muito) |
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